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Golpe de Estado: noite de reencontros e ausências

Créditos:
Eduardo Guimarães
Redação TDM
Foto: Edu Guimarães

Como apaixonado que sou pelo legado produzido por Paulo Zinner, Nelson Brito, Catalau e Hélcio Aguirra durante a segunda metade da década de 1980 e início da década seguinte, vou deixar um pouco de lado qualquer regra jornalística e escrever aqui um relato pessoal sobre a noite do último domingo, 23, quando algo quase inimaginável realmente aconteceu: André Leandre Marechal, vulgo Catalau, reassumiu por alguns minutos o posto de vocalista daquela que é para mim - e muitos outros - a mais querida banda do cenário rock n’ roll nacional, o Golpe de Estado.

Pelos diferentes caminhos que, por um lado, a banda tomou e, por outro, o ex-vocalista seguiu, essa reunião parecia algo muito pouco provável de ser realizada. Mas, graças aos esforços dos atuais integrantes do Golpe e da TC7 Produções (produtora comandada pelo Tiago Claro, guitarrista do Seventh Seal. Valeu!). O sonho de muitos fãs se realizou.

Antes das 18h00 alguns fãs já aguardavam ansiosos na porta da Clash Club, em São Paulo. E estes foram presenteados com a presença do próprio Catalau que, no momento em que cheguei ao local, atendia quem quisesse tirar uma foto ao seu lado ou pedia para autografar os LPs e CDs. O carisma continuava o mesmo.

Com a casa praticamente lotada, às 19h40 um vídeo produzido pelo fã-clube do grupo começou a ser exibido no telão ao fundo do palco. O vídeo mostrava trechos de shows antológicos do Golpe de Estado intercalados por depoimentos de membros do fã-clube. Ainda com uma sequência do vídeo com a imagem do saudoso e querido Hélcio Aguirra ao fundo, Marcello Schevano (guitarra), Roby Pontes (bateria), e Nelson Brito (baixo) assumem seus postos no palco.

Rogério Fernandes, que originalmente fez parte do grupo após a saída de Catalau, nos anos 90, e é quem está à frente da banda nesta turnê comemorativa de 30 anos, sobe ao palco para começar a noite cheia de emoção com o clássico “Nem Polícia, Nem Bandido”. Segue o show com “Underground” e a excelente e pesada “Feira do Rato”, única faixa apresentada do mais recente trabalho de estúdio do Golpe, “Direto do Fronte”. Este disco foi lançado em 2012 e marcou um renascimento do quarteto tendo à frente o vocalista Dino Linardi. Além de ser um ótimo disco, tenho um carinho especial pelo fato dele ter todas as fotos, capa e encarte, feitas por mim.





“Quantas Vão” e Cobra Criada” dão sequência e antecedem “Todo Mundo Tem Um Lado Bicho”, uma das duas faixas oficialmente lançadas pelo Golpe de Estado com Rogério Fernandes no vocal. A banda convida para o palco o tecladista Mateus Schanoski e apresenta a bonita e enérgica “Paixão”. Após “Zumbi” um novo convidado ocupa o canto esquerdo do palco: Luiz Carlini. O guitarrista do Tutti-Frutti debulha a slide guitar na bluseira “Moondog”. E foi então que a mágica se fez.

Com a plateia já totalmente no clima do show, o momento mais aguardado da noite aconteceu: Catalau é chamado ao palco e recebido por palmas, assovios, gritos e até lágrimas dos fãs que aguardavam por aquilo há, pelo menos, 16 anos. Com aparência serena e um sorriso largo, carregando um violão, Catalau se posiciona no centro do palco e a banda começa a tocar “Olhos de Guerra”. O belíssimo e inesquecível solo da canção é feito por Carlini.



“Real Valor”, sucesso do “Quarto Golpe”, vem na sequência e já mostra Catalau um pouco mais solto no palco. Ainda que tenha mantido uma vida como pastor da igreja Bola de Neve e se apresentando em eventos da instituição, aparentemente o vocalista precisou de um tempo para se reencontrar à frente daquele público e daquela banda. Mas, se houve esse período de estranhamento, ele se acabou rápido e em “Velha Mistura” Catalau já estava totalmente à vontade. Como era de se esperar, todos cantavam junto com o vocalista.

“Terra de Ninguém” foi a próxima do repertório e aí não consegui mais fotografar. A Clash já é um lugar ruim para o registro fotográfico, tanto pelo palco estreito e baixo quanto pela iluminação sofrível. Mas, além desses elementos externos, simplesmente não conseguia mais enxergar nada no visor da câmera estando com os olhos marejados.






Por mais que eu tente explicar aqui, não tem como. Só quem é fã de uma banda pode entender. Mas um filme passou na cabeça com tantos e tantos shows que eu assisti por aqui no Grande ABC. Muitos deles nos aniversários da 97FM, outros em clubes ou mesmo praças, como um no Paço Municipal de Santo André, quando Paulo Zinner estava com problemas de saúde e quem assumiu as baquetas foi Vitão Bonesso, do programa Backstage. Enfim...

O show continuou ainda com “Caso Sério”, com Catalau filmando com o celular o público que entoava cada palavra da canção. Dividindo os vocais com Rogério, Catalau fez sua derradeira participação no show cantando “Mal Social”. Obviamente o público pedia mais, mas o horário previsto para o encerramento se aproximava.





Estávamos de alma lavada! Levando em conta como isso era improvável de acontecer e o tempo que demorou para essa reunião se concretizar, aquelas seis músicas cantadas por Catalau serviram para trazer à tona lembranças em todos os fãs.

Por fim, Nelson Brito chama ao palco o último convidado, o ex-goleiro Ronaldo Giovaneli, comentarista esportivo e vocalista do grupo Ronaldo e os Impedidos. O cantor-esportista encerrou a noite dividindo os vocais com Rogério em “Noite de Balada”. Também emocionado, assim que subiu ao palco Ronaldo comentou que estava se sentindo como um garoto de 16 anos. E certamente era essa a sensação em boa parte dos presentes.

Falar sobre a ausência sentida de Hélcio Aguirra é redundante. O guitarrista foi lembrado no palco pelos parceiros e um show do Golpe nunca será como antes já que este é um posto que não pode ser preenchido por quem ou o que quer que seja. Aliás, Schevano é um excelente músico - basta ver seu trabalho com o Carro Bomba - e vem fazendo um excepcional trabalho no Golpe, apresentando as canções de modo fiel ao que foi composto pelo Helcião. Uma pena que um show como este não tenha acontecido antes do falecimento deste grande músico.

Agora é torcer para que novos shows especiais aconteçam nesta turnê comemorativa. Mesmo porque ainda tem outros nomes que deixaram suas marcas na história do Golpe de Estado que merecem participar dessa celebração.

Como diz uma composição do Helcião, “música mais do que tudo”. Esse é o Golpe de Estado.

* Os vídeos são de Dener Ariani, Eduardo Vaz e Juliano Stabile